Existem alguns textos, algumas histórias, algumas aulas que nos capturam. Não sabemos ao certo qual rede nos pegou, mas ela nos tira de algum lugar conhecido e nos coloca em uma paisagem nova.
Eu nunca tinha ouvido falar de Ananke, ainda sei pouco sobre sua mitologia e nem quero pesquisar muito por enquanto. Eu quero sentir, quero ficar com a imagem daquele altar vazio. Um altar… vazio.
Descobri durante a aula que Ananke, a Necessidade, costuma andar de mãos dadas com outros deuses. Ela os convoca a fazer parte de sua encenação silenciosa. Nunca sabemos quem virá pela mão de Ananke, mas sabemos que é uma mão pesada, que se abate sobre nós sem grandes explicações.
Inexorável… uma palavra para tentar decifrar o mistério de Ananke. Aquilo que não é previsto, que não pode ser evitado, que é sem palavras, sem altar, sem imagem.
Durante a leitura do texto, pensei em tantas histórias de pessoas famosas e pessoas desconhecidas para os outros, mas conhecidas por mim. Histórias que foram atravessadas por infortúnios, desgraças, tragédias inomináveis. Histórias que foram vividas de formas tão diferentes, tão únicas. Algumas se tornaram exemplos de superação, outras de resignação, outras de estagnação, congelamento.
Nem todo mundo tem a resiliência de Fátima, a fiandeira, cuja vida cheia de reviravoltas e naufrágios, terminou com final feliz graças as habilidades adquiridas ao longo de suas inúmeras aventuras e desafios.
Resiliência! Outra palavra que apareceu bastante ao longo das nossas conversas. Por que algumas pessoas simplesmente seguem em frente e outras andam em círculos? Por que a mão misteriosa de Ananke derruba alguns e fortalece outros? Que força é essa chamada resiliência, de onde ela vem? Será que vem do colo acolhedor dos cuidadores? Do olhar de carinho e da presença protetora? Dos filhos que foram sonhados? Por que algumas pessoas simplesmente dão a volta por cima e outras param no meio do caminho?
Caminhos próprios de cada individuação? Mas, afinal é livre-arbítrio ou destino? Joana D’Arc escolheu morrer na fogueira? Malala escolheu levar um tiro no rosto? Meu primo escolheu ficar paraplégico em um acidente de carro? Minha mãe escolheu ter câncer? Qual deus estava de mãos dadas com Ananke nesses momentos? Qual deus está vindo em nossa direção agora?
Doenças terminais, acidentes, perda repentina do emprego, suicídio na família, desastres naturais. Estar no lugar “errado”, na hora “errada”, como na linda cena do filme “O curioso caso de Benjamin Button”, em que a bailarina Daisy tem sua perna esmagada por um táxi e não pode mais voltar a dançar, simplesmente porque coisas aleatórias aconteceram para que ela estivesse justamente ali naquele exato instante fatídico.
Ananke, a força esmagadora do inexplicável, do incompreensível, da angústia que constitui a própria vida.
Ao estar presente no texto e no encontro, todas essas reflexões me emocionaram, me moveram, me tomaram pelas mãos, me conduziram de volta a questões que sempre estiveram comigo. Mas, uma questão entre tantas, ainda me consome: e quando não sabemos qual deus está acompanhando Ananke.
Como acalmar um deus sem nome e sem face? Como aplacar a ira de um deus que ainda não se revelou?
Sintomas que não cessam e mudam de forma, que não tem explicação médica, mas que permanecem ali tentando dar o seu recado, uma mensagem difícil de decifrar. Tento entender o que os sintomas querem me dizer, mas eles não falam claramente, embora gritem muito. Um grito silencioso de feridas abertas na alma.
O altar permanece vazio, mas tenho comprado flores enquanto aguardo.