Religiosidade e Metanoia na Psicologia Junguiana: Um caminho de transformação na segunda metade da vida

Psicóloga: Marcelly Cássia Botelho Chamone  CRP: 06/190746

O envelhecimento carrega junto com ele a possibilidade de desenvolvimento humano. Jung chamou a segunda metade da vida de metanoia, compreendendo que o foco de energia psíquica muda e ocorre uma reorientação. Esse foco, que antes era para o Ego, quando encontrava a fundação sólida para a construção da vida, passa a ter a energia direcionada para o Self, ocorrendo mudança do mundo exterior para o interior. É o momento de vida em que o crescimento espiritual, aproximação com a religiosidade, passa a atuar como um fortalecedor da psique nesse periodo.

Na contemporaneidade, compreendemos o meio da vida à partir dos 40 anos até 60 anos, em razão do aumento da longevidade da população. Segundo dados do censo de 2023 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a expectativa média de vida do brasileiro é de 77 anos – e hoje não é raro encontrarmos indíviduos com 90 anos. Esse marco difere daquele descrito por Jung, que viveu em uma época em que a expectativa de vida era significativamente menor, situando o meio da vida em torno dos 35 anos. Sobre essa etapa da vida humana, ainda pouco se encontram estudos e pesquisas em trabalhos de psicologia, diferente das etapas da infância. Porém, de acordo com a psicologia analítica, o desenvolvimento psicológico acontece durante todo o percorrer da vida até a morte, e a fase adulta é tão importante de ser aprofundada e compreendida, de ser analisados os movimentos psiquícos que ocorrem, quanto qualquer outra fase da vida. Possui sua importância para o desenvolvimento da personalidade.

Na segunda metade da vida há uma mudança de orientação da dimensão interpessoal, a qual anteriormente tinha um foco em conquistas da realidade externa, passa para um relacionamento aprofundado com a busca de tornar-se si-mesmo, um processo intrapsíquico, e a dedicação para atingir o sucesso externo é alterada para a preocupação com o sentido da vida e os valores espirituais. James Hollis (1995) aponta que, nesse momento, o sujeito pode se deparar com um questionamento fundamental: “A vida que construí ainda faz sentido?”. Surge, então, uma tensão entre o que foi vivido e o que ainda é possível construir com autenticidade

Jung compreende que a conexão do indivíduo com a religiosidade ocorre devido a aproximação entre o Self e a divindade. Compreende que o Self, si-mesmo núcleo da totalidade psíquica, está profundamente conectado à imagem de Deus (imago Dei), o que possibilita que a experiência religiosa atue como ponte entre o ego e conteúdos mais profundos do inconsciente. Segundo Jung, as práticas rituais presentes nas diversas religiões possuem o intuito de  provocar o efeito numinoso.  “Poderíamos, portanto,  dizer que o termo “religião” designa a atitude particular de uma consciência transformada pela experiência do numinoso” (JUNG, 2013a, p.4).

 No externo encontramos o símbolo religioso e no inconsciente o arquétipo, compreendendo que a experiência psicológica de contato com o Self e a experiência religiosa vivem como unidade abrangente de totalidade. O símbolo religioso, nesse sentido, cumpre a função de reorganizar a energia psíquica e de possibilitar uma reconexão com o Self.

 Os símbolos emergem da base arquetípica da personalidade, surgem de forma espontânea no inconsciente, atuando como canalizadores e organizadores da energia psíquica. Unem corpo e alma em uma experiência de integralidade e transforma a energia em formas culturais e espirituais. Símbolos espontâneos, autônomos, cuja formação e emergência independem da vontade consciente, antecipam a totalidade na psique — embora a totalidade possa parecer uma noção abstrata. (Cf. JUNG, 2013b, p. 225-6)

Na perspectiva junguiana, portanto, a vivência religiosa pode ser uma expressão legítima do processo de individuação. Durante a metanoia, essa aproximação com o Self — por meio da religiosidade — permite ao indivíduo reorganizar sua trajetória, integrar suas polaridades, e viver de forma mais coerente com sua essência. Trata-se, em última instância, de um processo de renascimento simbólico, em que a dor da desconstrução do ego é compensada pelo surgimento de um novo sentido de ser.

REFERÊNCIAS

HOLLIS, J. Apassagemdomeio: da miséria ao significado da meia-idade. São Paulo: Paulus, 1995.

JUNG, Carl Gustav. Psicologiaereligiãooriental.9.ed. Petrópolis, Vozes, 2013ª

________________Ab-reação, análise dos sonhos e transferência. 9.ed. Petrópolis: Vozes, 2012a.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Em 2023, expectativa de vida chega aos 76,4 anos e supera patamar pré-pandemia. Agência de Notícias IBGE, 28 nov. 2023. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/41984-em-2023-expectativa-de-vida-chega-aos-76-4-anos-e-supera-patamar-pre-pandemia. Acesso em: 27 jul. 2025.

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